segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hachura como instrumento de anotação sucinta de asserções

 
Esse desenho foi executado em carvão, pastel branco e tinta acrílica no fundo, a partir da foto da obra "Retrato do Monsenhor Antonio Cerri", de Alessandro Algardi, grande escultor contemporâneo de Bernini.
O propósito foi usar o papel como base abrangente de tom médio em contraposição às massas escuras representadas pelo carvão. Diferentemente daquela abordagem mais elaborada de manter-me por mais tempo no processo (meio) e protelar o fim, deliberei trabalhar de forma mais econômica, sucinta e rápida, pela sobreposição do que falta, utilizando a hachura como instrumento mínimo necessário para gerar luz, topografia e textura.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

TESTAMENTO DE RODIN

JOVENS QUE DESEJAIS ESTAR ENTRE OS CELEEBRANTES DA BELEZA, TALVEZ VOS AGRADE ENCONNTRAR AQUI O RESUMO DE UMA LONGA EXPERIÊNCIA.

Amai com devoção os mestres que vos precederam.

Inclinai-vos diante de Fídias e de Michelangelo. Admirai a divina serenidade de um, a feroz angustia do outro. A admiração é um vinho generoso para os espíritos nobres.

Entretanto, preservai-vos de imitar os mais velhos. Respeitosos da tradição, sabei discernir o que ela encerra de eternamente fecundo: o amor à Natureza e a sinceridade. São essas as duas paixões dos gênios. Todos adoraram a Natureza e nunca mentiram. Deste modo, a tradição vos estende a chave graças a qual podereis evadir-vos da rotina. É a própria tradição que vos recomenda interrogar incessantemente a realidade e que vos proíbe de vos submeter cegamente a qualquer mestre.

Que a Natureza seja vossa única deusa. Nela depositai uma fé absoluta. Estai certos de que ela nunca é feia e limitai vossa ambição a lhe ser fiéis.

Tudo é belo para o artista, pois em todo ser e em toda coisa, seu olhar penetrante descobre o caráter, isto é, a verdade interior que transparece sob a forma. E essa verdade é a pr6pria beleza. Estudai religiosamente - não podereis deixar de encontrar a beleza, porque encontrareis a verdade.

Trabalhai obstinadamente.

Estatuários, fortificai em vós o sentido da profundidade. O espírito dificilmente se familiariza com essa noção. Ele só representa distintamente superfícies, sendo-lhe difícil imaginar formas em espessura. Aí esta, portanto, a vossa tarefa.

Antes de tudo, estabelecei nitidamente os grandes planos das figuras que esculpis. Acentuai vigorosamente a orientação que dais a cada parte do corpo, à cabeça, aos ombros, à bacia e às pernas. A arte exige decisão. É pela fuga bem acentuada das linhas que mergulhais no espaço e que vos apoderais da profundidade. Quando vossos planos se fixarem, está tudo descoberto. Vossa estátua já vive. Os detalhes nascem e, em seguida, ordenam-se por si mesmos.

Enquanto modelais, não penseis jamais em superfície, mas em relevo.

Que vosso espírito conceba toda superfície como a extremidade de um volume que a empurra por trás. Imaginai as formas como se estivessem apontadas para vós. Toda vida surge de um centro, depois germina e desabrocha de dentro para fora. Do mesmo modo, na boa escultura, adivinha-se sempre um poderoso impulso interior. É o segredo da arte clássica.

Vós, pintores, observai, da mesma forma, o real em profundidade. Olhai, por exemplo, um retrato pintado por Rafael. Quando esse mestre representa um personagem de frente, ele faz o peito fugir obliquamente e é assim que dá a ilusão da terceira dimensão.

Todos os grandes pintores sondam o espaço. É na noção de espessura que reside a sua força.

Lembrai-vos disso: não ha traços, só ha volumes. Quando desenhais, nunca vos preocupeis com o contorno, mas com o relevo. É o relevo, que rege o contorno.

Exercitai-vos sem descanso. É preciso acostumar-vos à profissão.

A arte não é senão sentimento. Mas sem a ciência dos volumes, das proporções, das cores, sem a destreza da mão, o sentimento mais vivo paralisa-se. O que aconteceria com o maior poeta em um pais estrangeiro cuja língua ele ignorasse? Na nova geração de artistas há um grande número de poetas que, infelizmente, se recusa a aprender a falar. Por isso, não fazem mais que balbuciar.

Paciência! Não conteis com a imaginação. Ela não existe. As únicas qualidades do artista são: sabedoria, atenção, sinceridade e vontade. Cumpri vossa tarefa como operários honestos.

Jovens, sede verdadeiros. Isto porém, não significa: sede banalmente exatos. Há uma exatidão elementar - a da fotografia e do modelado. A arte só principia com a verdade interior. Que todas as suas formas, todas as suas cores traduzam sentimentos.

O artista que se contenta com o trompe-l'oeil (tipo de pintura que produz ilusão de ótica – N. da T.), e que reproduz servilmente detalhes sem valor, nunca será um mestre. Se visitastes algum campo santo da Itália, provavelmente observastes a puerilidade com que os artistas encarregados de decorar os túmulos limitam-se a copiar, em suas estátuas, os bordados, as rendas, as tranças de cabelo. Não são verdadeiros, já que não se dirigem à alma.

Quase todos os nossos escultores lembram os dos cemitérios italianos. Nos monumentos de nossas praças públicas, distinguimos apenas sobrecasacas, mesas, veladores, cadeiras, máquinas, globos e telégrafos. Nada de verdade interior, logo, nada de arte. Desprezai esses trastes.

Sede profundamente, ferozmente verídicos. Nunca hesiteis em expressar o que sentis, mesmo quando vos opuserdes às ideias prontas. Talvez não sejais logo compreendidos. Mas vosso isolamento terá curta duração. Amigos logo virão procurar-vos - pois o que é profundamente verdadeiro para um homem, o é para todos.

Contudo, nada de caretas ou contorções para atrair o público - simplicidade, singeleza!

Os temas mais belos encontram-se diante de vós: são os que conheceis melhor.

Meu caríssimo e extraordinário Eugene Carriere, que tão cedo nos deixou, deu mostras de gênio ao pintar sua mulher e seus filhos. Bastou-lhe celebrar o amor maternal para ser sublime. Os mestres são os que olham com seus próprios olhos o que todos viram e que sabem perceber a beleza do que é demasiado comum para os outros espíritos.

Os maus artistas vêem sempre com os olhos de outrem.

O essencial é emocionar-se, amar, esperar, vibrar, viver. Ser homem antes de ser artista! A verdadeira eloqüência zomba da arte. Retomo, aqui, o exemplo de Carriere. Nas exposições, a maior parte dos quadros é apenas pintura - os dele, no meio dos outros, pareciam janelas abertas para a vida!

Acolhei as críticas justas. Ireis facilmente reconhecê-las. São aquelas que vos confirmarão uma dúvida que já vos assalta. Não vos deixeis atingir por aqueles que vossa consciência não admite.

Não temais as críticas injustas. Elas revoltarão os vossos amigos, forçando-os a refletir sobre a simpatia que tem por vós e que manifestarão com mais segurança quando dela melhor discernirem os motivos.

Se vosso talento é novo, só contareis no primeiro momento com poucos partidários e tereis uma quantidade de inimigos. Não vos desencorajeis. Os primeiros triunfarão - pois eles sabem porque vos amam - os outros ignoram porque vós lhes sois odiosos. Os primeiros são apaixonados pela verdade para a qual recrutam, incessantemente, novos adeptos - os outros não testemunham qualquer zelo duradouro por sua opinião falsa. Os primeiros são tenazes, os outros vão ao sabor dos ventos. A vitória da verdade é certa.

Não percais vosso tempo a estabelecer relações mundanas ou políticas. Vereis muitos dos vossos confrades chegarem às honrarias e à fortuna pela intriga - não são verdadeiros artistas. Alguns são, no entanto, muito inteligentes e se vos empenhardes a lutar com esses pseudo-artistas em seu próprio território, ireis consumir tanto tempo quanto eles, isto é, toda a vossa existência: não vos sobrará, portanto, mais um minuto para ser artista.

Amai apaixonadamente vossa missão. Mais bela não há; é muito mais elevada do que o vulgo possa crer.

O artista dá um grande exemplo. Ele adora o seu ofício - sua mais preciosa recompensa é o prazer de trabalhar bem. Atualmente, que tristeza! Os operários são persuadidos, para a sua infelicidade, a odiar seu trabalho e a sabotá-lo. O mundo só será feliz quando todos os homens tiverem almas de artistas, quer dizer, quando todos encontrarem prazer em sua tarefa.

A arte é, ainda, uma magnífica lição de sinceridade.

O verdadeiro artista expressa sempre o que pensa com o risco de sacudir todos os preconceitos estabelecidos.

Ele ensina, assim, a franqueza aos seus semelhantes.

Ora, imaginemos que maravilhosos progressos se realizariam repentinamente se a verdade absoluta reinasse entre os homens.

Ah! Com que presteza a sociedade se livraria dos erros
e deformidades que tivesse confessado
e com que rapidez nossa terra
se tomaria um Paraiso!

AUGUSTE RODIN

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Estudos sucintos dos mestres em papel kraft

Este ano, resolvi fazer uma série de estudos rápidos (cerca de 35 minutos em média) utilizando carvão sobre papel kraft com o intuito de gerar maior desenvoltura na manipulação e agilidade mental de ordenar, da forma mais direta e simples possível, shapes e valores das massas. 
O conceito consiste em montar a estrutura do desenho (sem os pormenores dos pequenos planos), numa abordagem sucinta (por reter a qualidade do mínimo necessário por meio da observação seletiva), com anotação da luz, sem me preocupar em criar matéria ou estabelecer a escala tonal completa das massas (substituídas em grande parte pelas hachuras).
O lado instigante desse tipo de abordagem no desenho fica por conta do acesso ao ordenamento mental que esses grandes mestres pictóricos conduziram no que concerne ao movimento contínuo, silencioso e sutil das massas em suas pinturas.

Estudo 1 de Van Dyck

Estudo 2 de Van Dyck

Estudo 3 de Van Dyck.


Estudo em grafite da obra a óleo de Max Thedy. O desenho à esquerda corresponde à estrutura do desenho, pelo sistema gestual. O da direita comporta a combinação da estrutura do desenho com a estrutura da massa como anotação da luz.

Versão em carvão da obra de Max Thedy. Nessa estrutura do desenho com anotação da luz, é possível perceber tanto a falta de matéria como a despreocupação com o trabalho de borda. Os pequenos toques configuram a fisionomia sem que se recorra aos detalhes da textura de pele e afins.

Estudo de Anders Zorn

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Conceito de fluxo de luz e interrupção

A estruturação das grandes massas equivale ao ordenamento da base com a tripla finalidade de organizar os valores, dar unidade e transmitir a sensação de luz e matéria.
Dentro do conceito de fluxo de luz, as massas subjacentes da estrutura representam a incidência e distribuição de luz, enquanto a interrupção, constituída pelas concavidades e saliências do objeto, acaba curiosamente por configurar as especificidades visuais do modelo.
O aspecto que achei mais interessante nesse desenho ficou por conta da qualidade concisa desses shapes menores executados por meio de hachuras, as quais, por sua vez, mantêm a integridade visual das massas subjacentes.

Pastel preto, branco e cinzas sobre papel cartão, 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fluxo na prática...

De quando em quando, alguns estudos atingem certas qualidades intangíveis e, por essa mesma razão, indizíveis. Mas outro dia, respondendo a uma pergunta numa rede social, acabei tratando dos critérios, mais ou menos organizados, que ditam minha prática, embora quase inalcançáveis no meu atual estágio.
O primeiro, que tomei emprestado do zen (já que não sou praticante), de aceitar que a prática é que é expressiva (e não a obra, o tema, o artista, etc), o que exige implicitamente, e por tabela, a capacidade de esquecer de si mesmo. Dessa forma, a atenção volta-se para algo fora do praticante tornando possível a imersão no processo como campo do desconhecido.
O segundo, conceito emprestado de Harold Speed, mestre e pintor inglês, de buscar a sinceridade (e não a diferenciação ou originalidade estilística).
E, por último, o princípio da simplicidade, a tarefa quase impossível de a pintura atingir o irredutível e de ser o que é, nem mais, nem menos...

 
Estudo em carvão sobre papel Marrakech, a partir da escultura de Rodin

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Retrato de Max


Um dos maiores desafios ao tentar finalizar um retrato é o de justamente não se fiar estritamente nos detalhes com o intuito de adquirir similitude. A grande tendência é começar a imitar aqueles traços fisionômicos mais marcantes do modelo, fazendo com que os aspectos intrínsecos da construção (como a estrutura das grandes massas) comecem a perder a importância. A consequência natural é a perda da força visual em termos de abstração, embora a garantia de êxito seja mais provável.
 
Desenho em pastel preto, branco e cinzas.
 
 
No detalhe, é possível perceber como os planos menores e pequenos toques claros e escuros permitem manter a abordagem abstrata.


domingo, 10 de maio de 2015

Sessão de retrato de Walter

Essas fotos foram tiradas na sessão de retrato em outubro de 2014. Eu lembro de ter me proposto na época a realizar um estudo rápido de incidência e distribuição de luz, apenas com indicações dos grandes planos de luz, ajustes tonais por meio de hachuras e sobreposição de pequenos toques representando as interrupções de luz. Foi uma ótima maneira de evitar a busca da semelhança fisionômica ("formas com luz") e permanecer na representação da luz nas formas.
 



 Pastel preto, branco e cinzas sobre papel cartão


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sobre a estrutura das massas

Um dos aspectos mais importantes na formação de uma boa base na pintura, mas menosprezado, negligenciado, por desconhecimento, pressa ou  mesmo relapso, é o domínio sobre a estrutura da massa. Base crucial por ser o princípio em seu duplo aspecto: como aquilo que dá o fundamento conceitual e como início da ação, os quais, contendo as linhas gerais de raciocínio, sustentarão todas as sobreposições subsequentes.
Entendida como sistema ordenado de relações de valor das grandes massas, com anotações dos grandes planos de luz, é a estrutura das massas que garante unidade às variações tonais menores.
 
 

Retrato de Lúcia, pastel preto, branco e cinzas.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Retrato de Walter

Trabalho quase finalizado. Ao fundo, um estudo em carvão que, em geral, serve de referência de como conduzir as linhas gerais do trabalho.

Obra finalizada. Em termos de composição, a ideia é simples: fundo escuro agrupado com o valor do cabelo e a luz da figura criando uma leitura em diagonal descendente. Para gerar maior movimento de leitura na barba, criei uma grande área de empaste como espécie de underpainting. Já na região do rosto, equivalente ao plano de luz, procurei reduzir as variações tonais e trabalha-las num arranjo tonal estreito, para manter a unidade. Outra dificuldade desse tipo de ordenamento tonal se dá em função da paleta restrita de cor circunscrita à escala tonal sem grandes contrastes.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Estudo de cavalo

O conceito foi explorar o máximo das características do papel marrakech: a cor cinza esverdeada, o tom médio do papel e a textura, dentro do rigor do mínimo necessário. As massas abrangentes geram simultaneamente textura e unidade à sobreposição de tons mais claros e escuros. As hachuras dão a leitura dos planos menores, de modo mais "encaixado" e preciso. A escolha da cor quente no negativo (fundo) serviu para dar o contraponto à cor fria do positivo (figura).
 
"Cavalo", carvão e lápis conté branco sobre papel marrakech texturizado, 2015
 

De tempos em tempos, gosto de fazer desenhos pequenos por achar que possuem um certo charme e uma força visual diferente, além, é claro, de poder treinar a qualidade da síntese sucinta:  resolver com pouco (material) em pouco tempo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Estudo de incidência e distribuição de luz

Uma das maiores dificuldades de esculpir a forma com a luz, característica típica da abordagem pictórica, é representar a luz difusa e sutil, que acontece quando uma grande área encontra-se na penumbra. O conceito foi simultaneamente representar a luz, o movimento das massas nesse contexto sutil e dar ilusão de profundidade.

 Estruturação mista das massas e do desenho, focando o enquadramento (localização e proporção da figura no papel)

 Primeiras anotações de valor e dimensões do espaço com maior refinamento

 Nesse estágio, resolvi dar uma pausa para fazer uma análise contemplando a leitura.

Trabalho finalizado. Apesar da abordagem no estágio anterior estar mais solta, resolvi, pela sobreposição de shapes menores, atenuar as bordas e melhorar a condução da leitura das massas na penumbra de uma forma mais sutil e silenciosa. Esse é um bom exemplo de como o conceito pode guiar a ação intuitiva na direção, não da mera busca do retrato fidedigno da fisionomia, mas da proposição de uma questão e sua solução.

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